segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Você tem que... Será?

Essa semana me chamou a atenção uma frase sobre o psicólogo, dizia: “o psicólogo é aquele que amplia sua própria visão para depois servir de lanterna na escuridão do outro”.
            É bem verdade, apenas servimos para mostrar ao outro as várias possibilidades que, de um modo ou de outro, aquele que nos procura não o consegue fazer; porém, evitamos a qualquer custo a expressão “você tem que...”
            Eu, de fato, abomino essa expressão, acredito-a arrogante demais!
            Lembro-me à época da minha formação, de uma história que bem exemplifica isso, falávamos de saúde pública e da necessidade de permitir ao paciente ser completamente informado sobre a sua patologia e as possibilidades de tratamento e prognóstico, levando-se em conta a sua realidade, o que raramente acontece no sistema público de saúde por diversas razões que não cabem aqui.
            O caso era de um paciente, transexual, portador do HIV, que havia sido internado devido a complicações decorrentes de uma pneumonia.
            Durante o tratamento houve certo conflito quanto a vontade do médico em mantê-lo internado e a decisão do paciente em receber alta. Chamado o serviço de psicologia, buscava-se entender o que fazia aquele paciente se negar a continuar seu tratamento; parecia uma insanidade. O que se ouviu do paciente, no entanto, me deixou perplexa; talvez pela clareza que esse paciente tinha de sua própria realidade. Ele contou: “o médico diz que tenho que permanecer internado, eu sei disso, mas na verdade, tenho que pagar meu aluguel”.
            Parece-me fácil dizer a qualquer um “você tem que”; o fato de sermos semelhantes, humanos, viventes da mesma sociedade, contudo, isso não nos dá esse direito; raramente conseguimos, com total clareza, contextualizar toda a realidade do outro antes de dizer “você tem que”.
            Alguns pacientes se queixam exatamente disso, “o psicólogo nunca me diz o que fazer”, e é aí que a frase citada no começo faz todo o sentindo, nosso trabalho consiste em iluminar as várias opções que podemos perceber dentro da realidade do nosso paciente, mas somente a ele cabe a decisão de qual caminho seguir.

            

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